quinta-feira, agosto 24, 2006

O erro do Supralapsarianismo

Um dos principais motivos na estrutura do plano supralapsariano é o desejo de preservar o princípio particularista em todas as relações de Deus com os homens; não com respeito a salvação do homem somente, senão através de todo o curso da ação divina com respeito aos homens. Desde a criação, Deus vê os homens considerados como divididos em duas classes, os que recebem respectivamente o Seu imerecido favor, e os de Sua merecida reprovação. De acordo com isto, alguns supralapsiarianos colocam o decreto da discriminação primeiro na ordem de pensamento, precedente ao decreto da criação. Todos eles o colocam na ordem de pensamento precedente ao decreto da queda. É pertinente, portanto, enfatizar que a sua intenção de particularizar a relação total de Deus com os homens não está realmente realizado, e indubitavelmente não pode ser realizado pela natureza do caso. O decreto de criar ao homem, e mais particularmente o decreto de permitir ao homem cair no pecado, são necessidades universalísticas. Não somente alguns homens são criados, nem somente alguns homens são criados diferentes dos outros; senão que toda a humanidade está criada em sua primeira cabeça, e toda a humanidade está criada semelhantemente. Não se permite apenas a alguns homens cair; senão que todos os homens semelhantemente caem. O intento de colocar o particularismo fora da esfera do plano da salvação, onde o problema é diverso (porque somente alguns homens são salvos), na esfera da criação, ou da queda, onde o problema é comum (pois todos os homens são criados e todos são decaídos), fracassa por mera necessidade do caso. O particularismo pode entrar na questão somente onde os diversos argumentos demandam a postulação de diversas relações que objetivam a diferente fins. Não pode ser colocado na região das relações divinas com o homem anteriores à necessidade da salvação humana e das relações de Deus com ele com referência a uma salvação que não é comum a todos. O supralapsarianismo erra, em conseqüência, tão seriamente por uma lado, como o universalismo por outro. O infralapsarianismo oferece o único plano correto que é consistente por si mesmo, ou consistente com os fatos.

Extraído de B.B. Warfield, El Plan de la Salvación, pp. 20-21

2 comentários:

Rogério Portella disse...

Prezado irmão Tokashiki,

Gostaria muito que vc levasse em consideração as palavras de Vincent Cheung que passo a traduzir:

Comentário de 1Pedro (30)
Postado por Vincent Cheung em 26/5/2006.

O versículo 20 [do cap. 1] diz que Cristo foi “escolhido [NVI; nota de rodapé] antes da criação do mundo, revelado nestes últimos tempos em favor de vocês”. Isto nos diz o que sugerimos antes, que a redenção não foi um pensamento posterior nem uma reação ao pecado, Mas sim, o decreto divino de que Cristo redimisse os eleitos por seu sangue antes mesmo da criação.

Podemos dizer aqui algo sobre a ordem dos decretos eternos, e em conexão com isto, sobre o supralapsarismo e infralapsarismo. Pelo fato de Deus ser eterno e onisciente, não existe um segundo sequer em seu pensamento no qual ele não saiba todas as coisas ou não as tenha decidido cabalmente; portanto, quando falamos acerca da ordem na mente divina, fazemos referência à ordem lógica e não à cronológica.

O infralapsarismo confunde a ordem de desígnio ou propósito com a ordem de execução. Reclama que no supralapsarismo, Deus decreta a identidade dos réprobos sem levar em consideração sua pecaminosidade. Porém, afirmei em outro lugar que a reprovação é incondicional, por isso esta reclamação não se apresenta como um problema.

Além disso, como já mencionamos, quando consideramos o plano de Deus a partir da perspectiva última de sua glória, mesmo a reprovação serve ao propósito da redenção — isto é, ela define aqueles a quem Cristo não redimiria — e não da forma contrária. Na ordem dos decretos eternos, uma vez que Deus tenha decidido que haveria eleitos e réprobos, então ele decretou que a humanidade sucumbiria ao pecado para realizar sua decisão.

Por sua vez, no infralapsarismo, quando Deus decreta a queda do homem, ele o faz sem saber a razão ou o quê ele fará com ela! Porém, se ele tiver a redenção em mente e, desse modo a distinção entre eleitos e réprobos, para que ele saiba o motivo pelo qual decreta a queda do homem, então ele já decidiu o assunto da redenção e, assim, isto se torna supralapsarismo.

É claro que a execução da redenção vem depois da queda do homem no pecado. Mas, na ordem de desígnio ou propósito, a pessoa primeiro prospecta o fim que deseja alcançar, e então decide os meios pelos quais o alcançará. O infralapsarismo significa necessariamente que Deus decretou a queda do homem sem saber o motivo pelo qual optou por ela ou o que aconteceria depois disso. Este é apenas outro jeito de dizer que o infralapsarismo é logicamente impossível.

Portanto, a glória de Deus vem em primeiro lugar na ordem dos decretos eternos e, para alcançá-la, decreta-se que Cristo subjugaria todas as coisas para o Pai. Uma forma de alcançar este objetivo é decretar que Cristo redimiria da humanidade caída indivíduos eleitos para se tornarem seus co-herdeiros — portanto, a humanidade caída seria dividida em eleitos e réprobos. A fim de alcançar este objetivo, decreta-se que toda a humanidade caísse no pecado. Então, a fim de realizá-lo, estabelece-se o decreto da criação da humanidade. Esta é a ordem de desígnio ou propósito. A ordem é revertida na execução, para que toda a criação venha em primeiro lugar, e o plano de Deus culmine em sua glória.

A maior objeção contra o esquema supralapsarista refere-se à oposição de que a idéia de Deus pode designar a identidade dos réprobos antes de decretar sua queda no pecado. No supralapsarismo, Deus decreta em primeiro lugar a existência dos réprobos, e então decreta a queda para que esses réprobos possam se tornar realidade. Mais uma vez, a objeção contraria a reprovação incondicional. Em outras palavras, a objeção é contra a soberania absoluta de Deus, ou o fato de que Deus é Deus.

Então, por sua vez, a objeção contra a reprovação incondicional é de ser injusta — isto é, não de acordo com qualquer padrão estabelecido na Escritura, mas segundo a intuição pecaminosa do homem. Ele se sente desconfortável com a idéia! Em qualquer caso, quando Deus executa a punição contra os réprobos, eles já caíram no pecado, de modo que Deus, de fato, não pune ninguém que seja impecável e inocente, isto é, exceto quando ele causou o sofrimento de Cristo. Mesmo então, a punição aplicada foi justa na mente de Deus porque Cristo carregava a culpa dos eleitos (Is 53.10). Portanto, o princípio foi coerentemente aplicado.

Desse modo, a objeção contra o supralapsarismo realmente diz respeito à relutância de admitir que Deus é Deus, e não um homem ou mera criatura. Este é o maior culpado por trás de todos os sistemas teológicos falsos, quer pensemos no liberalismo, arminianismo ou no calvinismo incoerente. Na realidade, porém, não há objeção bíblica ou racional contra o supralapsarismo, ou contra o calvinismo coerente, de modo geral.

Uma vez que tenhamos abandonado os pressupostos falsos e antropocêntricos, a ofensa da soberania divina absoluta desaparece. O fato de desejarmos deixá-la partir é uma outra questão. A obra do Espírito na santificação é necessária para abdicarmos de todo o senso da autonomia humana e do raciocínio antropocêntrico, incluindo o tipo relativo e ilusório de “liberdade” apresentado pelo calvinismo incoerente.

Ewerton B. Tokashiki disse...

oi Rogério

Este texto do Cheung já li. Muito vigoroso e persuasivo. Entretanto, as duas posições oferecem pontos positivos e também inconsistências. Creio que dificilmente chegaremos a um momento em que eliminaremos uma posição. A história da teologia testemunha que ambas as posições [supra e infra] foram e são sustentadas por teólogos fielmente calvinistas que mantém uma lógica rígida e zelo pela coerência da verdade.

Certamente o supralapsarianismo me "incomoda" naquelas questões que não encontro resposta, mas ainda não estou plenamente convencido que devo abandonar o infralapsarianismo por causa disto ainda. Quando fui para o Seminário [JMC] inicialmente era supralapsariano, mas nas aulas do Dr Heber C. Campos, tornei-me infra.

Hoje tenho revisto o meu Calvinismo, e sinceramente, tenho migrado do VanTillianismo para "pressuposicionalismo racional" (vide* Norman Geisler, Enciclopédia Apologética, p. 712-713), que é a linha do Gordon H. Clark [que é supralapsariano]. Mas este processo tem sido longo e doloroso para mim. Tenho revisado toda a minha conceituação teológica e [re]sistematizada à partir da perspectiva do Dr Clark, todavia, a minha grande dificuldade pessoal tem sido realmente a questão da ordem lógica dos descretos. O Dr John Robbins, pessoalmente, enviou vários livros para mim, tenho lido, mas a dificuldade é o tempo [que as atividades pastorais exige].

Agradeço o seu comentário. Não vamos perder contato.

Abraços do seu servo
Rev Ewerton B Tokashiki
prtokashiki@gmail.com