sábado, dezembro 06, 2025

O livre arbítrio

A companheira da justiça do primeiro homem é a liberdade ou livre-arbítrio, sendo a primeira uma faculdade da alma, pela qual ele livre, voluntária e sem qualquer força externa, escolheu aquilo que percebeu, deliberou e decidiu o que escolheu. Isso não era indiferença em fazer o bem ou o mal, porque lhe era natural fazer o bem, enquanto fazer o mal era contrário à sua natureza. E a liberdade não era imutável. Pois, dessa forma, não haveria lugar para a tentação. Pois a imutabilidade da vontade não pertence à natureza, mas à graça e à glória. A liberdade também não era independente, porque em Deus Adão foi movido (At 17.28). Ele carecia da graça não para curar a corrupção, mas para preservar a integridade, a fim de vencer as tentações do diabo. Em vez disso, a liberdade, juntamente com a deliberação de fazer o bem, era mutável.

Johann Heinrich Heidegger, The Concise Marrow of Theology, p. 46.

sábado, abril 27, 2024

O Credo Apostólico

Creio em Deus Pai,
Todo-Poderoso, Criador do céu e da terra.
Creio em Jesus Cristo,
seu único Filho, nosso Senhor,
o qual foi concebido pelo Espírito Santo,
nasceu da virgem Maria,
padeceu sob o poder de Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado;
desceu aos infernos,[1]
ressuscitou dos mortos no terceiro dia,
subiu aos céus, está sentado à destra de Deus, o Pai onipotente,
e virá de lá para julgar os vivos e os mortos.
Creio no Espírito Santo,
na santa igreja universal,
na comunhão dos santos,
na remissão dos pecados,
na ressurreição do corpo
e na vida eterna.
Amém.[2]

 

NOTAS:

[1] Esta é uma claúsula que tem causado controvérsia entre católicos, luteranos, anglicanos e calvinistas em geral, quanto ao seu significado. A expressão surgiu no século V no Credo revisado pelo bispo Rufino de Aquiléia, ela não faz parte do credo original. Vide* Phillip Schaff, The Creeds of Christendom [Grand Rapids, Baker Books, 6ª ed., 2007], vol. 2, pp. 49-55.

[2] O Credo Apostólico como o conhecemos encontra-se pela primeira vez em Dicta Abbatis Pirminii de singulis libris canonicis scarapsusu (= excerptus, excerto), c. 750 d.C. Todavia, a sua escrita teve início num período posterior entre 70 a 100 d.C..

quarta-feira, março 20, 2024

Calvino e a Lei Natural

 Finalmente, este estudo de Calvino e da equidade lança luz sobre o pensamento do reformador sobre o direito natural. Há uma enorme literatura sobre este tema, com o debate acirrado em torno de se a lei natural tem ou não um lugar claro na teologia e na ética de Calvino. Os estudiosos que afirmam que a lei natural é importante para Calvino incluem Emil Brunner (1935; 1946), John T. McNeill (1946), Susan Schreiner (1991) e I. John Hesselink (1992). Aqueles que argumentam que sua compreensão da a lei natural é incoerente ou inconsequente incluem Karl Barth (1934) e James Torrance (1988). A literatura sobre Calvino e a lei natural ofusca enormemente a literatura sobre Calvino e a equidade, que é muito pequena e foi citada neste capítulo. No entanto, apesar da estreita ligação demonstrada entre equidade e lei natural, bem como do lugar crucial que a equidade desempenha no pensamento ético de Calvino, o conceito de equidade é, muitas vezes, uma peça negligenciada no debate sobre a lei natural na teologia de Calvino. No entanto, não há dúvida de que o conceito de equidade desempenha um papel crítico neste debate, e que se quisermos levar a sério as ideias jurídicas de Calvino, o lugar essencial da lei natural na sua teologia não pode ser ignorado. Isso não quer dizer que não existam conflitos entre o direito natural e a antropologia teológica, mas apenas que não se pode negar que o próprio Calvino gastou muita energia na discussão do direito natural e da equidade. Os debates futuros sobre Calvino e a lei natural não podem incluir a imagem completa do seu pensamento sem abordar o conceito de equidade.[1]



[1] Alexander Batson, “Calvin and Equity” in: Gordon Bruce & Carl R. Trueman, eds., The Oxford Handbook of Calvin and Calvinism (Oxford, Oxford University Press, 2021), p. 86.

sexta-feira, abril 17, 2020

Declaração de inocência de Jan Hus

Jan Hus declarou a sua inocência diante da acusação de heresia. Este foi o seu testemunho escrito:

Eu, Jan Hus, na esperança do sacerdócio de Jesus Cristo, com medo de ofender a Deus e com medo de perjúrio, por meio desta, declaro minha falta de vontade de abjurar todos ou quaisquer dos artigos produzidos contra mim por falsas testemunhas. Pois Deus é minha testemunha de que eu não os preguei, nem os afirmei nem os defendi, embora eles digam que eu o fiz. Além disso, com relação aos artigos que eles extraíram de meus livros, digo que detesto qualquer interpretação falsa que alguém tenha feito deles. Mas à medida em que tenho medo de ofender a verdade ou contradizer a opinião dos doutores da Igreja, não posso abjurar nenhum deles. E se fosse possível que minha voz agora alcançasse o mundo inteiro como no Dia do Julgamento, todas as mentiras e todos os pecados que cometi serão manifestos, então eu alegremente abjurarei diante de todo mundo todas as falsidades e erros que eu, ou aquelas que imaginam que eu disse, ou realmente disse!

Eu digo que escrevo isso por minha própria vontade e escolha.

Escrito com minha própria mão, no primeiro dia de julho.

Herbert B. Workman and R. Martin Pope, eds., The Letters of John Hus (London: Hodder and Stoughton, 1904), pp. 275-276.

quarta-feira, março 18, 2020

Os votos matrimoniais escritos por João Calvino

“Você, N., confessa diante de Deus e de sua santa congregação que você assume e recebe como sua esposa e cônjuge N. aqui presente, a quem promete proteger, amá-la e mantê-la fielmente, como é o dever de uma pessoa verdadeira e fiel marido de sua esposa, vivendo piedosamente com ela, mantendo fé e lealdade a ela em todas as coisas, de acordo com a santa Palavra de Deus e seu santo Evangelho?"

"Você, N., confessa diante de Deus e de sua santa assembleia que você assume e recebe N. como seu legítimo marido, a quem promete obedecer, servindo e estando sujeito a ele, vivendo piedosamente, mantendo fé e lealdade a ele em todas as coisas, como uma esposa fiel e leal deve ser ao marido, de acordo com a Palavra de Deus e o santo Evangelho?”


JohnWitte, Jr., “Marriage Contracts, Liturgies, and Properties in Reformation Geneva” in: Philip L. Reynolds and John Witte, Jr., orgs., To Have and to Hold - Marrying and Its Documentation in Western Christendom, 400–1600 (Cambridge, Cambridge University Press, 2007), p. 461.

domingo, novembro 24, 2019

A Confissão de Theodore Beza (1560)

27. Do ofício do pastor e mestre
O cargo e ofício daqueles, a saber dos pastores, é que sejam diligentes e ocupem-se da sua doutrina (sob a qual também temos compreendido os sacramentos) e da oração (At 6.4), sob a qual também entendemos a benção dos casamentos dos crentes de acordo com o antigo costume da igreja.

32. O terceiro grau dos ofícios eclesiásticos é a jurisdição e o ofício de presbíteros
O terceiro estado do ofício eclesiástico reside na jurisdição espiritual que foi ordenada àqueles que foram particularmente chamados nos escritos dos apóstolos e antigos escritores (tanto em concílios como em decisões canônicas) presbíteros, isto é, seniores ou anciões; os quais também, às vezes, são chamados de governos por são Paulo (1Co 12.28), e foram escolhidos não pelo clero, mas por todo o corpo da igreja.


James T. Dennison Jr., org., Reformed Confessions of the 16th and 17th Centuries in English Translation 1552-1566, Vol. 2, p. 322

sexta-feira, novembro 30, 2018

O Voto Inaugural do Sínodo de Dordt [Novembro 1618]

Prometo a Deus, em quem creio e adoro, como aqui presente, e como Aquele que perscruta os pensamentos e o coração, que durante todo o curso das tratativas deste Sínodo, o qual se fará um inquérito e julgamento e decisão, não apenas dos bem conhecidos Cinco Pontos, e todas as dificuldades resultantes deles, mas também de todos os outros tipos de doutrinas, que eu não utilizarei qualquer tipo de escrito humano, mas somente a Palavra de Deus, como única regra de fé segura e infalível. Tampouco terei qualquer outra coisa em vista durante toda esta discussão, senão a honra de Deus, a paz da Igreja e, acima de tudo, a preservação da pureza da doutrina, ajuda-me, meu Salvador Jesus Cristo, a quem eu imploro para que me auxilie neste meu intento pelo Seu Espírito Santo.

G. Brandt, The History of the Reformation in and about the Low Countries (1723), p. 62.

quinta-feira, setembro 13, 2018

Soberania divina e responsabilidade humana

"A tensão soberania divina e responsabilidade humana não é problema a ser resolvido, mas um esquema a ser explorado."

D.A. Carson, Divine Soverreignty & Human Responsability, p. 2

terça-feira, setembro 04, 2018

Graça comum e arminianos

“Este é o único lugar [Canônes Dort capítulo 3 e 4, Erro 5] em nossas Confissões Reformadas onde o termo ‘graça comum’ ocorre, e neste singular lugar ele é encontrada na boca dos arminianos.”

Homer C. Hoeksema, The Voice of Our Father – An Exposition of the Canons od Dordrecht, p. 590

segunda-feira, novembro 27, 2017

O que é fé?

A fé é um descanso do coração em Deus, como o autor da vida e da salvação eterna. Dizemos isso, porque por ele somos libertos de todo mal e obtemos todo o bem.

William Ames, The Marrow of Theology, p. 6.

terça-feira, novembro 21, 2017

Sistema de governo eclesiástico

Hans Hillerbrand observa que "a adoção de uma ordem eclesiástica para Genebra foi o preço exigido para o retorno de Calvino em 1541. Esboçado pelo próprio Calvino, e posteriormente um pouco modificado, esta ordem apresentou uma igreja de acordo com o paradigma bíblico e além disso, permitir que Calvino colocasse o seu entendimento da vida da igreja em prática". Ele ainda comenta que "uma das mais marcantes características das Ordenanças, bem como das demais ordens eclesiásticas na tradição calvinista modeladas depois dela, foi a provisão para a disciplina eclesiástica e a supervisão do comportamento das pessoas. Esta disciplina seria exercida pelo consistório, compondo-se dos ministros e doze presbíteros, que deveriam suprimir desvios morais e teológicos". Hans J. Hillerbrand, ed., The Protestant Reformation, pp. 172-173.

quarta-feira, novembro 15, 2017

Bispos e presbíteros - iguais e distintos

Aprendemos com uma revisão das igrejas desde a época dos apóstolos, que também pareceu bem ao Espírito Santo que entre os presbíteros, a quem a administração eclesiástica é principalmente comissionada, que exerçam cuidados singulares com as igrejas e os ministérios sagrados e com esse cuidado e preocupação presidam todos os outros (Atos 20:28). Por esse motivo, o nome do bispo foi especialmente atribuído a esses principais administradores das igrejas, mesmo que estes não decidam nada sem a consulta dos demais presbíteros, que também são chamados bispos nas Escrituras por causa deste ministério comum (Fp 1:1; Tt 1:7).

Martin Bucer, De Regno Christi in: Willhelm Pauck, ed., Melanchthon and Bucer, p. 248.

sexta-feira, outubro 13, 2017

A Forma de Juramento Prescrito Para os Ministros da Igreja de Genebra

Aprovado pelo Consistório Menor em 17 de Julho de 1542

A forma e apresentação do juramento e da promessa que os ministros do evangelho, admitidos e recebidos na cidade de Genebra devem fazer diante do Nobre Sindico e do Conselho da referida cidade, será da seguinte forma:

Prometo e juro que no ministério, para o qual sou chamado, servirei fielmente diante de Deus, afirmando puramente a sua Palavra para a edificação desta igreja a que ele vinculou-me; que não abusarei de sua doutrina para servir minhas preferências carnais, nem agradarei a qualquer homem, mas que a empregarei com consciência pura no serviço da sua glória e para proveito do seu povo, ao qual sou devedor. Igualmente prometo e juro defender as Ordenanças Eclesiásticas conforme aprovadas pelos Conselhos Menor e Maior desta cidade e, à medida em que eu for encarregado de administrá-las, inocentando-me lealmente, sem dar lugar ao ódio, sem favores de preferências, ou à vingança, nem a qualquer outro sentimento carnal, e, em geral, cumprir o que é próprio de um bom e fiel ministro. Em terceiro lugar, eu juro e prometo guardar e manter a honra e o bem-estar dos nobres e da cidade de Genebra, esforçando-me, na medida do possível, para que as pessoas continuem em paz e na benéfica unidade sob o governo do Conselho, e não consentindo, de modo algum, que alguém os viole. Finalmente, eu prometo e juro, por estar sujeito ao governo e constituição desta cidade, mostrar um bom exemplo de obediência a todos, sendo da minha parte, sujeito às leis e aos magistrados, tanto quanto o meu ofício permitir; isto é, sem prejuízo da liberdade que devemos ter ao ensinar de acordo com o que Deus nos ordena e fazer as coisas que pertencem ao nosso ofício. E, concluindo, prometo servir aos nobres e as pessoas de tal maneira, desde que não seja impedido de prestar a Deus o culto que lhe devo em minha vocação.

Extraído de J.K.S. Reid, ed., Calvin: Theological Treatises, pp. 71-72.

terça-feira, setembro 19, 2017

Os princípios essenciais do presbiterianismo

"Quais são os princípios essenciais da forma presbiteriana de governo eclesiástico?
R. A liderança suprema de Jesus Cristo; a igualdade de oficialato de seus ministros; o ofício do presbítero regente como representativo do povo; a eleição dos oficiais por uma igreja particular [i.é., local] pelos membros; e a autoridade de seus vários tribunais."

Extraído de Thomas Smith, Ecclesiastical Catechism of Presbyterian Church, p. 29

sexta-feira, setembro 09, 2016

´Toda verdade é verdade de Deus

"A verdade pode ser definida, em seu sentido mais estrito e metafísico, como a consistência e concordância de nossas ideias com as ideias de Deus."

"Memoirs" in: The works of Jonathan Edwards, vol 1, p. ccxxv

quinta-feira, abril 07, 2016

Os deveres e direitos da razão na religião

“uma religião divorciada do pensamento rigoroso e elevado pode ser vista no curso inteiro da história da Igreja, e por isso, ela sempre tendeu a ser débil, árida e pouco saudável; bem como o intelecto privado de seus direitos dentro da religião, buscou a sua satisfação fora dela, e se transformou num racionalismo secular”.

Extraído de James Orr, Concepción Cristiana de Dios y el mundo, p. 30.

quinta-feira, fevereiro 26, 2015

O sepultamento como humilhação de Cristo

Os três dias de detenção, ou de permanência no sepulcro é o último degrau de sua humilhação, naquele momento a sua alma foi transferida ao Paraíso, o seu corpo foi detido sob os sofrimentos e amarras da morte, como se ele fosse completamente superado e engolido por ela, os seus inimigos enquanto isso triunfaram sobre ele, como se Cristo tivesse por todo cortado [desta vida].

Johannes Wollebius, The Abridgement Christian Divinitie (London, Plough in the New Building in Paules Church, trad. Alexander Ross, 1660), p. 142.

quinta-feira, fevereiro 12, 2015

Teoria Política e Calvinismo

Reconhecendo o tradicional ensino calvinista da depravação total das pessoas, Althisius enfatizou que Deus criou pessoas como seres morais, afetivos, comunicativos e sociais, e enquanto vivem são mais completamente preenchidos de relacionamentos simbióticos com outros com quem podem compartilhar os seus corpos e almas, suas vidas e espíritos, seus bens e direitos. Assim, enquanto pessoas nascem livres, iguais e distintas, elas são por natureza e necessidade inclinadas à formar associações – casamentos e famílias, clubes e corporações, cidades e províncias, estados, nações e impérios. Cada uma destas associações, desde o mais simples lar até o mais vasto império, é formado por um mútuo pacto consensual, ou contrato juramentado por todos os membros daquela associação diante de cada um e de Deus.

John Witte Jr., “Law, Authority, and Liberty in Early Calvinism” in: David W. Hall & Marvin Padgett, eds., Calvin and Culture – Exploring a Worldview , p. 32.

terça-feira, fevereiro 10, 2015

Os quatro estágios da liberdade da vontade

“O livre arbítrio é dividido em quatro modos, por causa dos quatro estados do homem. No primeiro estado a vontade do homem era livre para o bem e para o mal. No estado caído o homem é livre somente para o mal. O homem nascido de novo, ou o homem em estado de graça, é livre do mal e para o bem, pela graça de Deus somente, mas imperfeitamente. No estado de glória ele será perfeitamente livre do mal para o bem. No estado de inocência o homem era capaz de não pecar [posse non peccare]. No estado de miséria ele é incapaz de não pecar. No estado de graça, o pecado não pode governar o homem. No estado de glória ele se tornará incapaz de pecar.”

Johannes Wollebius, Compendium Theologicae Christianae in: John W. Beardslee III, ed., Reformed Dogmatics, p. 65.

quinta-feira, fevereiro 13, 2014

Oração de Hulrich Zwingli antes de pregar

"Deus Todo-poderoso, eterno e misericordioso: Tua Palavra é uma lâmpada ante os nossos pés e uma luz em nossos caminhos. Abre e ilumina os nossos sentidos para que entendamos límpida e santamente as tuas promessas e também para que aquilo que entendamos nos comova e transforme. Assim, agradeceremos a tua majestade. Por Jesus Cristo, o nosso Senhor. Amém."

Extraído de M. Gutiérrez Marín, Zuinglio - Antologia, p. 37.